
Von Neanderthal Museum
TEXTOS DA EXPOSIÇÃO
Os números deste leitor correspondem aos textos numerados da exposição.

O vale teve sempre o aspeto que tem hoje?
O que encontraram aqui os trabalhadores em 1856?
Porque é que uns quantos ossos se tornaram uma sensação?
Em tempos, o vale de Neandertal era um desfiladeiro rochoso selvagem, de beleza quase mágica. Escarpas íngremes de calcário erguiam-se sobre o vale, uma vegetação densa cobria as encostas e o rio Düssel corria impetuoso pelo vale estreito.
Uma paisagem que maravilhava quem a contemplava e inspirava artistas.
No século XIX, esta beleza atraía pintores e amantes da natureza. Contudo, com o início da extração de calcário, começou também a sua destruição: em poucas décadas, a impressionante paisagem rochosa foi quase totalmente devastada.
Desde 1921, partes do vale estão classificadas como área protegida. Hoje, o vale de Neandertal é um valioso habitat para numerosas espécies animais e vegetais, e um lugar que apenas permite vislumbrar a sua beleza perdida.
Os ossos do Homem de Neandertal foram descobertos por acaso. Em agosto de 1856, trabalhadores encontraram-nos ao escavar a camada de barro da gruta de Feldhof. Mais tarde, Johann Carl Fuhlrott descreveu o esqueleto como estando deitado de costas, com a cabeça voltada para a entrada da gruta. É provável que o Homem de Neandertal tenha sido sepultado naquele local.
Contudo, a extração de calcário destruiu a gruta e a sua localização exata acabou por cair no esquecimento. Só em 1997 e 2000 é que os arqueólogos voltaram a localizar o sítio da descoberta. Sob os escombros de calcário, encontraram barro da gruta, ferramentas, ossos de animais e outros fragmentos humanos. Estas descobertas mostram que ali também se encontravam os ossos de outra mulher de Neandertal. Um dente de leite indica que, em tempos, também esteve uma criança na gruta.
Atualmente, a torre de observação Höhlenblick assinala este local especial.
Uma marca de picareta testemunha o momento da descoberta. Estende-se do osso da bacia até à cabeça do fémur. Quando os trabalhadores encontraram os ossos, ambos ainda se encontravam em posição anatómica. Isto sugere que, em 1856, o esqueleto permanecia intacto no barro da gruta.
Os ossos encontrados no vale de Neandertal não se enquadravam na visão do mundo do século XIX. Fuhlrott viu neles os restos de um ser humano muito antigo, mais antigo do que tudo aquilo que, na época, se considerava possível. A sua interpretação era mais do que uma simples tese científica. Ela virou a ordem do mundo de pernas para o ar.
Pois naquela época, considerava-se que o ser humano era imutável: criado à imagem de Deus, como o auge da criação e único entre todos os seres vivos. A ideia de que, antes de nós, poderiam ter existido outras formas humanas era uma descoberta que abalava as conceções do mundo. E esta descoberta retirou o ser humano da sua posição de exceção.
Pouco tempo depois, Charles Darwin alargou esta perspetiva com a sua teoria da evolução. O ser humano deixou de ser visto como estando acima da natureza, e passou a fazer parte de uma longa história de transformação, parentesco e evolução.
Assim, a descoberta de 1856 tornou-se um momento-chave da ciência e o vale de Neandertal passou a ser considerado o berço da paleoantropologia.
Johann Carl Fuhlrott (1803–1877) foi professor, naturalista e um observador atento do meio que o rodeava. Com grande entusiasmo, estudou a fauna e a flora da região, escreveu sobre elas e partilhou o seu conhecimento com outras pessoas. Quando analisou os ossos encontrados no vale de Neandertal, reconheceu neles os restos de um "homem antediluviano". Para determinar a sua antiguidade, baseou-se ainda nas cronologias da Bíblia.

O que faz de nós seres humanos? Desde quando existem seres humanos? Que idade tem o mundo em que vivemos? Estivemos sempre sozinhos na Terra?
A evolução da vida e as suas alterações decorrem em períodos de tempo praticamente inconcebíveis para os seres humanos. Já Charles Darwin tinha consciência disso: "A observação de tais factos tem quase o mesmo efeito sobre o espírito como o esforço vão de tentar imaginar a eternidade" (fonte: "A Origem das Espécies" 6.ª edição 1872).
Apenas há pouco mais de 100 anos temos uma ideia da idade efetiva da Terra, desde quando há vida no nosso planeta e quão curta é, em comparação, a existência do homem e dos seus antepassados fósseis.
Atualmente, somos a única espécie humana na terra, o que constitui uma situação evolutiva especial. Até à extinção dos homens de Neandertal, viveram sempre várias espécies de hominídeos em simultâneo. São raras as descobertas fósseis que permitem a reconstrução da nossa história de evolução. Algumas espécies são apenas comprovadas por ossos dispersos, outras meramente por vestígios de ADN. Em vez de uma árvore genealógica, atualmente, a nossa evolução é representada como um rio largo, que se ramifica e forma novos braços que, mais tarde, poderão voltar a juntar-se. A evolução do homem não é um processo intencional, mas o resultado de adaptação e de coincidência.

Como começou a história da humanidade?
Como era o mundo dos nossos antepassados?
Onde ficaram os homens de Neandertal?
Como vieram os homens para a Europa?
A história dos homens começou em África, e no início existiam alterações no ambiente natural. Entre nove a sete milhões de anos atrás, as alterações climáticas levaram à retração da floresta tropical. Os hominídeos já percorreram as paisagens de lagos e rios mais expostas sobre duas pernas.
Há três milhões e meio a dois milhões de anos, o clima em África começou a tornar-se mais fresco e seco, alternando com fases mais quentes. Hominídeos diferentes desenvolveram adaptações distintas às condições de vida oscilantes. Habitavam nas savanas, florestas, margens dos rios ou orlas das florestas. Alimentavam-se de ervas, frutos, bolbos ou insetos. As suas diferentes adaptações refletiam-se nos seus corpos distintos.
As espécies nunca permanecem iguais; estão em constante modificação. Mesmo no seio de uma população não há dois indivíduos iguais, pois durante a conceção o material genético dos progenitores é sempre misturado de novo. Os biólogos chamam a isto a recombinação dos genes. Durante este processo, são sempre formados conspecíficos novos e únicos. Mas também a modificação do próprio material genético, as chamadas mutações, pode resultar em novas variantes.
Quanto mais adaptado um indivíduo desta diversidade de variantes estiver ao seu ambiente, maior serão as suas hipóteses de sobrevivência. Tirará mais proveito dos alimentos disponíveis, alimentar-se-á melhor e será mais eficaz contra inimigos. Frequentemente, os mais bem-sucedidos têm também uma prole particularmente numerosa, o que lhes permite impor progressivamente a sua predisposição genética.
A linha de Homos começou há cerca de 2,5 milhões de anos, com o Homo habilis, o primeiro homem a fabricar ferramentas de pedra a partir de escombros. Já no Homo erectus, cujos restos mortais mais antigos descobertos até à data, com 2 milhões de anos, eram claramente visíveis as características tipicamente humanas. Já tinha "cabecinha", como comprova o seu cérebro bastante desenvolvido, andava bem de pé e tinha aumentado claramente o tamanho corporal. Em contrapartida, a sua dentição tornou-se mais pequena, e a sua pilosidade enfraqueceu. Construía diversas ferramentas em pedra e madeira, e cuidava de forma intensa da sua prole.
O Homo erectus migrou de África para a Ásia e a Europa. Foi a partir dele que se desenvolveu o Homo heidelbergensis e, a partir deste, o homem de Neandertal.
Os antropólogos conhecem muito bem os homens de Neandertal (Homo sapiens neanderthalensis): de nenhuma outra espécie de homem foram encontrados mais ossos fossilizados. Estes distinguem-se claramente daqueles do homem contemporâneo (Homo sapiens sapiens).
Os homens de Neandertal tinham ossos fortes. Os seus rostos denotavam a ausência de covas nas maçãs do rosto, pelo que tinham um aspeto mais alongado. Acima dos olhos destacava-se um toro supraorbital proeminente, e as mandíbulas e os dentes eram igualmente fortes. Possivelmente usavam os incisivos, muitas vezes fortemente desgastados, como "terceira mão". O seu cérebro era maior do que o nosso.
Nós, o Homo sapiens sapiens, surgimos há aprox. 300 000 anos, em África, de descendentes do Homo erectus africano. Dotados de uma grande capacidade de adaptação, pusemo-nos a caminho, para popularmos todo o globo. Durante esta viagem, deparamo-nos, na Ásia e na Europa, com parentes remotos, como os homens de Neandertal e os hominídeos de Denisova, descendentes de uma migração anterior que partiu de África. Chegámos à Europa há cerca de 40 000 anos. Vivíamos como caçadores-coletores do período glacial, tal e qual como os homens de Neandertal, cuja presença tinha sofrido uma forte redução devido às constantes mudanças de fases climáticas mais quentes e muito frias. O nosso material genético revela que até nos misturámos com eles, mas muitas regiões eram tão escassamente povoadas que nem sempre nos encontrávamos. Os primeiros a chegar voltaram a ser afastados pelo clima inóspito do período glacial. Fixámo-nos apenas depois do grande frio.
O clima sempre influenciou as condições de vida das pessoas. Na alternância de períodos quentes e frios, estas tiveram de se adaptar constantemente ao ambiente em mudança.
As flutuações climáticas a curto prazo durante a última era glacial foram particularmente severas, e levaram ao frio extremo e à seca. Grandes partes da Europa estavam sob gelo e eram inabitáveis. As pessoas deslocaram-se para sul, oeste e leste. A sobrevivência dos Neandertais em pequenos grupos tornou-se cada vez mais difícil. Foram extintos há 40 000 anos. Com o aquecimento no final da última era glacial, os grandes mamíferos da tundra-estepe também se extinguiram.
Utilizando vários métodos, investigadores de todo o mundo reconstroem o clima do passado e, desta forma, obtêm também informações importantes para o desenvolvimento climático de hoje. As flutuações climáticas da era glacial não podem ser comparadas com as de hoje. O atual aquecimento climático é intensificado e acelerado pela influência humana.

As ferramentas de pedra são afiadas?
Os Neandertais conseguiam fazer fogo?
É possível viver sem metais?
Será que só os seres humanos conseguem usar ferramentas?
Como terá surgido o buraco?
A origem de muitas invenções tecnológicas do homem é muito antiga. Ao longo de milhares de anos, estas invenções foram constantemente aperfeiçoadas e melhoradas com recurso a novas matérias-primas e processos. Tecnologicamente significativa era, por um lado, a união de várias peças em ferramentas complexas com uma capacidade de desempenho claramente superior. Por outro lado, com a conversão das matérias-primas, como no fabrico de cerâmica ou na transformação de metal, era possível fabricar novos materiais artificiais.
Mas foi apenas com a industrialização, no século XIX, e a aplicação de energias fósseis, como o carvão e o petróleo, que a conversão das matérias-primas e a síntese de novos materiais puderam ser exploradas em grande escala. Ao mesmo tempo e de forma muito rápida, o conhecimento tecnológico atingiu tais dimensões, que estas condições industriais permitiram criar invenções revolucionárias.
As provas mais antigas de ferramentas têm 3,3 milhões de anos, uma altura em que ainda não existia nenhuma espécie de homem. Foram, portanto, os australopitecos ou os Kenyanthropus que construíram estas ferramentas, que lhes permitia desmanchar animais ou quebrar frutos de casca rija.
As ferramentas de pedra também permitiam construir outras ferramentas, e foi assim que se estabeleceu o processo constante do fabrico de ferramentas com ferramentas. Estavam lançadas as bases para a nossa cultura material.
Será que as ferramentas tornam o ser humano único? Não totalmente. Também muitos animais desenvolvem soluções surpreendentes. Os chimpanzés utilizam paus para apanhar térmitas. Os corvos dobram arames para criar ganchos. Os polvos constroem abrigos com conchas. Observam, experimentam e adaptam o seu comportamento.
O espírito inventivo, portanto, não começa apenas com o ser humano. Mas, no ser humano, uma boa ideia transforma-se em algo especial: o conhecimento é partilhado, transmitido e continuamente aperfeiçoado. De ferramentas simples surgem técnicas, tradições e, por fim, cultura.
O que, à primeira vista, parece pouco impressionante pertence às ferramentas mais sofisticadas do Paleolítico: o furador de pedra. Com sílex afiado, os seres humanos conseguiam furar ossos, dentes, conchas ou marfim. Foi assim que surgiam pendentes, contas e outros objetos de adorno.
Para isso, eram necessárias força, paciência e muita experiência. Através de movimentos rotativos, areia ou outros materiais abrasivos, eram criadas pequenas aberturas precisas. Descobertas na gruta de Geißenklösterle, na Alemanha, mostram que, há cerca de 40.000 anos, os seres humanos já combinavam conhecimentos técnicos com expressão simbólica. As ferramentas não serviam apenas para a sobrevivência. Também ajudavam a tornar visíveis a identidade, o sentimento de pertença e a beleza.

Existem comunidades sem mitos?
Os homens de Neandertal sepultavam os seus mortos?
As pinturas rupestres são as obras de arte mais antigas?
Quem construiu os túmulos megalíticos?
As religiões mundiais são incompatíveis entre si?
Desde os tempos primitivos que as pessoas pensam sobre o início do mundo e a sua própria origem. Registaram as suas interpretações em histórias sagradas, das quais atualmente, em todas as culturas, conhecemos um número evidente. Nos mitos da criação, deuses ou seres sobre-humanos criam a terra a partir do caos, e fazem surgir o mar, as montanhas, as plantas, os animais e, por fim, o homem.
Estas histórias são tidas como verdadeiras, e são contadas de geração em geração, oferecendo orientação num mundo percecionado como sendo misterioso e poderoso. Contrariamente às nossas teorias modernas relativamente à criação do mundo, através do Big Bang e a evolução, estas histórias dispensam provas científicas. Acredita-se, portanto, em mitos.
A morte desafia-nos invariavelmente a pensar sobre o sentido da nossa existência. Ela não leva apenas a vida do indivíduo. Os mortos também deixam um vazio no tecido das relações sociais: um parceiro que perde o seu par, o filho que perde um progenitor, o irmão que perde a irmã. Os ritos fúnebres e de luto ajudam os familiares a lidar com a perda. Quando, por exemplo, as pessoas enlutadas se reúnem a seguir ao funeral, isso reforça o sentido de solidariedade da comunidade. É desta forma que se inicia o que inevitavelmente tem de acontecer: o preenchimento do vazio, a reposição da ordem na comunidade.
Sabemos que os homens de Neandertal foram os primeiros homens a debater-se com a morte e a sepultar os seus mortos.
O homem pré-histórico também criava arte para levar consigo. Fazia pequenas esculturas, gravuras em pedras e ornamentos em objetos utilitários do dia-a-dia. Num esforço minucioso, criava objetos de arte da maior qualidade e expressividade. Com mais de 30.000 anos, figuras talhadas em marfim de mamute dos Alpes da Suábia são as obras de arte mais antigas conhecidas da humanidade. Tal como na arte rupestre, os animais são o motivo mais escolhido pelos artistas. Exceção são as figuras femininas em pedra, corno, marfim de mamute ou barro cozido, alguns milhares de anos mais recentes. Estas são descobertas em locais de acampamento que vão do sudoeste de França até ao lago Baikal na Sibéria. Semelhanças evidentes ao longo de vastas distâncias e longos períodos de tempo apontam para a importância cultural do símbolo "mulher".
Os homens do fim do período glacial já levavam uma vida muito espiritual, o que se reflete de forma expressiva na quantidade de pinturas rupestres e entalhes no Sul da Europa. As pinturas murais mais antigas, criadas há mais de 30 000 anos, são da gruta de Chauvet, no Sul de França.
O tema central dos artistas primitivos eram os animais que os rodeavam; as figuras humanas são raras. Apesar de atualmente conseguimos reconhecer os motivos, já não conseguimos ler as mensagens por trás das pinturas. São muitas as provas de que as grutas profundas eram templos para os ritos de iniciação ou outras cerimónias importantes, mas também existe arte mural nas áreas iluminadas pela luz natural nas entradas das grutas ou em falésias ao ar livre.
O tratamento dado aos mortos, visto de uma forma universal, comprova uma enorme criatividade humana. São criados sítios, construídos objetos, inventados ritos e regras. Os túmulos megalíticos (gr.: mega = grande, lithos = pedra), criados no período pós-glacial, à medida que nos tornámos sedentários, são exemplos antigos de sítios, criados pelo homem, nos quais os mortos eram sepultados ao longo de muitas gerações e que, ao mesmo tempo, permitiam estabelecer contacto com o sagrado.
Muitas vezes, os ritos da morte integram um tratamento especial do corpo da pessoa falecida. O transporte até ao local da sepultura tem um significado ritual ou social, e a deposição final dos restos mortais pode variar muito. Além disso, são celebrados ritos que excedem a morte em termos temporais.
Há mais de 5 000 anos, surgiram as primeiras religiões culturais no Oriente Médio e no Egito. Estas estavam intimamente ligadas ao estado e ao seu soberano.
Cerca de 70 % da população mundial pertencem às atuais religiões mundiais, o cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo e confucionismo. Apesar das diferentes divindades, credos e costumes, estas religiões partilham muitos aspetos: as escrituras sagradas com afirmações centrais para a vida religiosa e pessoal; os sacerdotes que se dedicam exclusivamente à religião e à divulgação da mesma; as edificações monumentais nas quais o sagrado encontra a sua morada terrestre. A maioria dos grandes sistemas de crenças também conhece um benfeitor, que vivia uma vida exemplar para os seguidores ou que, na qualidade de "emissário de Deus", anunciava sua a palavra.

Quão saudáveis eram os homens de Neandertal?
Desde quando existem cáries?
Qual é o aspeto de uma escavação?
Como sabemos como viviam as pessoas na Idade da Pedra?
Ao longo de dois milhões de anos, os homens percorreram o mundo como nómadas, e viviam do que a natureza lhes dava. Recolhiam frutos, bagas, frutos de casca rija, raízes, ovos, marisco e insetos. Caçavam mamíferos, peixes e aves de pequenas e grandes dimensões. Era a mobilidade dos caçadores-coletores que conferia tanto sucesso a esta estratégia de vida. As fontes de alimentos da natureza fornecem alimentos em épocas diferentes do ano e em locais diferentes. As pessoas acompanhavam este ritmo e, muitas vezes, permaneciam apenas algumas semanas num acampamento. Os grupos eram pequenos, não excedendo 20 a 30 pessoas, e quando os alimentos eram escassos e ameaçava a fome, os grupos dividiam-se ainda mais. Mas quando se abatia uma manada reuniam-se vários grupos.
Do ponto de vista biológico, o homem é um omnívoro. Tanto pode obter os componentes imprescindíveis da sua alimentação - hidratos de carbono, gorduras, proteínas, vitaminas e minerais - de alimentos vegetais e como de alimentos animais. O homem utilizou esta flexibilidade de forma extremamente criativa, e conseguiu encontrar sustento em todo o mundo, não se limitando a aumentar a sua lista de alimentos, mas também inventando novas formas de preparação. Cozer, estufar ou assar os alimentos tornava-os mais tenros. Ao longo da nossa evolução tivemos de mastigar cada vez menos, o que, há milhões de anos, resultou na diminuição das mandíbulas, dos masséteres e dos dentes: os nossos rostos refletem o que comemos.
Com a sedentarização, o homem encetou um novo capítulo na forma como lidava com a natureza. Os caçadores-coletores praticamente não deixavam marcas na paisagem. Assim que abandonavam os acampamentos estes eram logo recobertos.
Há 10 000 anos, a agricultura e a criação de gado criaram uma espiral, que se move até aos dias de hoje: alimentos em maior quantidade e disponibilidade permitiram o aumento da população, o que, por sua vez, exigia a produção de mais alimentos. Portanto, os agricultores desbravam florestas, drenavam pântanos e arrancavam mais do solo. A paisagem era dominada por campos e pastagens. Nas modernas estepes agrícolas, muitas espécies deixam de encontrar sustento. O vento e a água da chuva deslocam a camada superficial do solo dos campos despidos, fertilizantes e pesticidas constituem um risco para a água potável, as regas intensivas salinizam os solos.
Uma escavação arqueológica significa sempre a destruição irrecuperável do local onde foi feito o achado. Por este motivo, é importante documentar tudo com precisão, antes de se proceder à escavação cuidadosa com espátula e pincel. Além disso, são feitas medições e desenhos, mas também são tiradas fotografias e feitas digitalizações. Diversos cientistas participam na classificação dos achados e conclusões, e cada achado é examinado. No caso de ferramentas de pedra determina-se, por exemplo, qual é a proveniência do material pétreo. Os homens do tempo da pedra construíam-nas no local do achado ou já as traziam prontas? Os ossos animais e humanos são examinados por especialistas, com recurso a métodos científicos. Os resultados das investigações individuais são como peças de um puzzle que, quando juntadas, permitem a reconstrução do nosso passado.

A linguagem é tipicamente humana?
Os homens de Neandertal tinham cérebros diferentes dos nossos?
Todas as sociedades conhecem a família nuclear?
A concorrência entre os homens é inevitável?
Sempre existiram diferenças sociais entre os homens?
Os primeiros hominídeos conseguiam comunicar apenas através de gestos, expressões faciais e sons simples. Não tardaram em desenvolver a linguagem, mas uma vez que esta não deixa fósseis, pode apenas ser corroborada de forma indireta.
Os requisitos biológicos para a capacidade linguística são um tamanho cerebral suficiente, bem como formações anatómicas especiais da faringe e da laringe.
Provavelmente, o Homo erectus cumpria estes requisitos biológicos, e já não conseguia transmitir através de aprendizagem imitativa e gestos os seus conhecimentos abrangentes sobre o ambiente natural, nem os conhecimentos artesanais complexo e as regras da vida, elaboradas ao longo de milhares de anos. A linguagem permitia a transmissão de geração em geração da riqueza de conhecimentos adquiridos em constante crescimento. Sem dúvida que os homens de Neandertal mais tardios falavam de forma semelhante à nossa.
Em relação ao tamanho corporal, o nosso cérebro é três vezes maior do que nos grandes primatas. Perfaz cerca de 2 % do nosso peso corporal, mas consome 20 % da nossa energia corporal. Este órgão extremamente refinado é responsável pela posição especial que o homem ocupa. Em termos biológicos, o crescimento do cérebro foi vertiginoso: desde os primeiros hominídeos até ao Homo erectus o volume cresceu mais do dobro.
Com o crescimento do cérebro, também cresceram as suas competências. A perceção do habitat e o armazenamento de informações eram cada vez mais aperfeiçoados. A comunicação era cada vez mais precisa, e, com a ajuda do cérebro, criou-se um sistema cultural de armazenamento de informações, com uma enorme flexibilidade e uma capacidade de expansão sem precedentes.
O ser humano é um nascimento prematuro. Ele tem de vir ao mundo em estado imaturo, para que a sua cabeça, com o cérebro de grandes dimensões, ainda consiga passar pelo canal de parto. Se tivesse o mesmo grau de maturidade de um chimpanzé bebé, teria de permanecer mais dez meses no ventre materno. É por este motivo que, para além dos cuidados maternos, é indispensável o apoio por parte de outros elementos, que têm de prestar ajuda direta e indireta à criança e à mãe: obtendo alimentos e outros recursos, disponibilizando equipamentos e ferramentas, e garantindo proteção. Para além da integração do homem e outros membros do grupo no acompanhamento das crianças, o papel da avó é também uma invenção do homem. O acompanhamento comunitário da prole surge, o mais tardar, com o Homo erectus. Os cuidados prestados à criança criavam grupos nucleares de laços estreitos.
A definição moderna de família composta por pai, mãe e criança é um produto do século XIX. Para além da família nuclear, os grupos de parentes são típicos nas comunidades humanas. No seio dos caçadores-coletores, a nível mundial, o tamanho de grupo destas unidades sociais mais pequenas era, em média, de 25 pessoas. Escavações em acampamentos do período glacial sugerem números semelhantes. Os grupos nucleares constituíam a base da nossa evolução cultural. Com uma imaginação excecional, os homens criaram uma variedade incalculável de relações de parentes e regras, e a própria sociedade atual está sujeita a esta dinâmica. É assim que as famílias "colcha de retalhos" constituem uma nova variante da família civil.
Todos os seres humanos atualmente vivos têm uma antepassada comum.
No interior das nossas células encontram-se vestígios de gerações passadas. Estes permitem aos investigadores reconstruir relações de parentesco ao longo de milhares de anos e traçar o percurso da nossa história comum.
Este caminho leva-nos até África, às nossas origens. A nossa antepassada recorda-nos que, para além de todas as fronteiras, culturas e diferenças, existe uma origem comum – uma ligação entre os cerca de 8 mil milhões de seres humanos em todos os continentes.
Quem compreende de onde viemos começa também a questionar: para onde vamos?
Aquilo que hoje está escondido nas nossas células conta-nos histórias de antigos caminhos e encontros do passado.
Há cerca de 200.000 anos, viviam na África Oriental seres humanos que riam, aprendiam, amavam e cuidavam uns dos outros. Eles não podiam imaginar que, um dia, os seus descendentes viriam a habitar toda a Terra.
Os seres humanos não são os seres vivos mais rápidos nem os mais fortes do planeta. Ainda assim, conseguiram atravessar desertos, transpor oceanos e povoar todos os continentes. O nosso segredo do sucesso não foi a força, mas a cooperação.
Todos os seres humanos atualmente vivos estão ligados entre si por uma linhagem materna comum. Ela não foi a primeira mulher nem a única da sua época. Mas, enquanto outras linhagens desapareceram, a sua permaneceu até aos dias de hoje. Os investigadores deram a esta mulher o nome de "Eva".